Liberte sua pratica

 

 

Lutar por posturas perfeitas pode levar ao sofrimento, mas aprender a trabalhar dentro dos seus limites vai libertar a sua prática.

Gostando ou não, muitos de nós não vamos nunca alcançar a perfeição pela qual lutamos, simplesmente porque nem todas as posturas são acessíveis da mesma forma para todas as pessoas. Variamos em tamanho de corpo e proporcionalidade, idade, condições físicas, tempo de prática e atitude.

Se olharmos em volta, tudo tem um limite, uma barreira, um extremo. O dia tem um limite, a noite tem um limite, sua energia tem limite, seu estômago tem limite. Todo corpo tem limite também – no alongamento, na abertura dos quadris, na extensão do braço. O Yoga trata principalmente sobre limites.

As posturas existem para ajudar a entender o que está acontecendo no seu próprio corpo, para construir músculos saudáveis e flexíveis e para criar mais integração, alinhamento do esqueleto e estabilidade nas articulações. Focar toda sua energia em posturas perfeitas é como fazer yoga para uma performance artística.

Inevitavelmente, o primeiro lugar em que sentirá limitações enquanto pratica será nos músculos, talvez uma puxada na sua coxa interna que avisa para não afundar mais. Esse são os alarmes do corpo, ainda assim podemos alongar mais do que imaginamos. Então como alongar os músculos ao limite sem se machucar? A chave é acalmar o sistema nervoso. A habilidade de alongar um músculo é limitada principalmente pelos reflexos defensivos do sistema nervoso. Se você continua alongando depois de seus reflexos de proteção darem sinal, o músculo vai contrair imediatamente e você vai rasga-lo. Parte da arte do Yoga é conseguir que o sistema nervoso relaxe para que os músculos cedam. Relaxe, respire e pare quando sentir o toque que sinaliza o limite. Relaxar no lugar de forçar pode fazer com que os músculos parem de contrair. Então, se tudo der certo, você eventualmente conseguirá alongar mais sem se machucar.

Os limites dos músculos são bem flexíveis, pratique o tempo suficiente e fará progresso em seu alongamento, porque quase todas as limitações são musculares, mas outras partes do corpo não são tão negociáveis.

Por exemplo, quando se trata de ligamentos – o tecido resistente e fibroso que liga osso a osso e mantem as articulações juntas – você consegue o que nasceu com você. Um ligamento é bem inelástico quando comparado a um músculo. Não é algo que possa ser alongado e passa a ser maior. As condições dos ligamentos são congênitas. Algumas pessoas nascem com ligamentos curtos, e isso não mudará. Outras tem ligamentos frouxos e podem se aprofundar nas posturas, com pouco esforço. Se sua estrutura tem ligamentos rígidos segurando o esqueleto, pode ser que nunca consiga fazer algumas posturas que exijam muita flexibilidade. Se trabalhar muito contra o limite de um ligamento pode correr o risco de criar microfissuras no tecido conectivo, o que pode causar instabilidade nas articulações e lesões.

Da mesma forma, os tendões – o tecido fibroso que liga os músculos aos ossos  - não devem ser alongados.

 

Sobre os Ossos

Esse é o limite absolutamente não negociável – o tamanho, formato e orientação de seus ossos. As pessoas acham que todo mundo vai ficar igual depois de queimarem suas limitações musculares e problemas emocionais, mas a questão esquelética é bem forte.

Quando osso bate com osso é o fim da amplitude de movimento do esqueleto. Ponto final. Tente passar disso e você se machucará.

É preciso diferenciar limitação muscular da limitação esquelética. Tensão – quando alongamos tecidos moles como os músculos – Compressão – quando seus ossos se aproximam até baterem um no outro. Compressão não pode ser mudada, tensão pode.

Você pode sentir simultaneamente tensão e compressão em uma postura, o que torna difícil descobrir as diferenças, mas as sensações em seu corpo podem dar a dica. Tensão – que se refere a alongar os músculos cria muitas sensações. Você pode sentir que deve tomar cuidado ou se machucará. Compressão pode parecer um leve beliscão, normalmente não doloroso, motivo pelo qual pode ser negligenciado.

O melhor jeito de se familiarizar com seus limites é continuar praticando e experimentando. Alongar mais e mais quando sente que a postura está ficando muito intensa não ajuda. Só quando o sistema nervoso relaxa é que um alongamento seguro pode acontecer.

Deixe sua respiração ser seu professor. Se ficar forçada, desigual ou difícil, ou se perceber que está prendendo a respiração, precisa dar um passo para trás. Pode estar fazendo exercícios calistênicos ou de fortalecimento, mas o que transforma isso em Yoga é a respiração – siga a respiração e aprenderá muito sobre suas limitações.

As pessoas se distraem porque se identificam mais com o objetivo do que com a experiência. Não se concentre no pequeno número de coisas que limitam. Se focar em todos os lugares onde não está tenso estará brincando com possibilidades ilimitadas.

Quando identificar uma tensão, deixe-a ir. Uma vez tomado conhecimento dos limites do seu corpo, isso gera uma enorme liberdade. Aceite que nunca vai ficar igual a postura da revista, se liberte de toda energia gasta tentando mudar o que não pode ser mudado. Poderá então focar em criar um alinhamento adequado ao seu corpo – um que faça com que o  prana flua de forma que se sinta forte, ágil e equilibrado. Por fim repita silenciosamente: “Deus me de a serenidade para aceitar o que não pode ser mudado, a coragem para mudar o pode e a sabedoria para ver a diferença entre os dois”.

Revista Prana Yoga jul-2007 – pg.54

 

Todo progresso físico é temporário. O corpo fica doente, envelhece, e um dia você pode não conseguir curvá-lo. Sentirá que fracassou, então? Sua prática espiritual deve ser mais profunda. Se o seu modelo é a perfeição física, você perderá. Considerando que se o seu foco for como se sente, o Yoga cria compaixão em vez de competição.

Revista Prana Yoga – jul-2008 – pg.82