Hatha Yoga e a percepção de si mesmo e o todo

 

 

Hoje em dia o Hatha Yoga é a principal porta de entrada para o Yoga. As pessoas são levadas à prática por diferentes disposições: encontrar saúde, melhorar concentração, encontrar paz, melhorar rendimento no esporte. Todas as buscas são válidas, pois dentro do Yoga há algo muito maior a ser descoberto, muito mais profundo e fundamental do que o motivo que nos levou a procurá-lo. Essa é a descoberta de nós mesmos, da nossa natureza essencial.

Dentro do caminho do Yoga muito falamos de um mergulho, de uma viagem interior. Realmente há uma descoberta interior no sentido de um reconhecimento de si mesmo. Porém, intrínseca a essa descoberta, está a percepção da não-separação. Faz parte do caminho do Yoga o reconhecimento de não diferença entre o Si Mesmo e o Todo. Assim, quanto mais aprendemos sobre nós mesmos, sobre a nossa mente, o funcionamento do nosso corpo, mais aprendemos sobre a natureza humana. E não apenas sobre a natureza humana, sobre a natureza como um Todo.

Vemos que estamos totalmente interligados uns com os outros, e todos com a Terra. Existe uma interdependência e inter-relação fundamental entre todas as nossas ações conscientes (movidas pelo nosso intelecto) e inconscientes (processos biológicos, ações não deliberadas). E a percepção de que os resultados das minhas ações tem efeito não apenas sobre mim mesmo, mas também sobre os demais e sobre toda a natureza revela-nos a importância de seguirmos uma conduta ética.

 

O Yoga é muito mais do que uma prática corporal, é um estilo de vida. E como um estilo, abarca não apenas o âmbito individual, mas o coletivo. Um indivíduo que tenha um comprometimento com uma vida de Yoga tem influência nas pessoas ao seu redor e no ambiente em que está inserido. Vejamos então como a prática de Yoga está vinculada a uma atitude ecologicamente ética e a uma aproximação da natureza.

 

Yoga como ferramenta de transformação ambiental e coletiva

 

O Yoga propõe uma conduta ética que é balizada por valores que chamamos de yamas. Entre estes estão a não violência e o desapego. Existem outros valores yogis, mas a incorporação de apenas esses dois no nosso dia a dia é em si uma postura revolucionária, de transformação ambiental e coletiva.

Compreender o que é desapego e incorporar esse valor nos mostra que podemos levar uma vida muito mais simples do que levamos. Ajuda-nos a ver bens materiais de maneira mais objetiva, colocando o valor de uso acima do fetiche. E isso faz com que tenhamos a lucidez para consumirmos menos, o que significa poupar a natureza e poluir menos. Por sua vez, viver a não violência é fundamental para que preservemos e tentemos evitar causar dano a qualquer tipo de manifestação de vida.

Como ferramenta de transformação, o Yoga nos oferece, também, uma ampla gama de práticas corporais. A partir da consciência do nosso corpo, da nossa respiração, do espaço que ocupamos no mundo, o Yoga ajuda a nos conectar com os ritmos e as forças da natureza. Alem disso, por meio da meditação e do questionamento, o Yoga nos coloca numa postura de reflexão sobre qual é o nosso papel individual e social na vida.

Hoje a causa ambiental está em cena. Empresas que poluem, exploram e degradam o meio ambiente apresentam uma imagem de responsabilidade social e ambiental. Outras tantas usam esse filão para vender mais dos seus produtos. O que é um paradoxo, pois quanto mais consumimos, mais degradamos. Ou seja, está na moda ser “ecológico” e nós sabemos exatamente o que fazer, coletivamente e individualmente, para minimizar os danos que estamos causando ao nosso planeta. Porém, parece haver um fosso enorme entre a teoria e a prática. Esquecemos que as grandes transformações são feitas a partir de pequenos atos cotidianos. E assim seguimos querendo mudar o mundo com o discurso mudado, totalmente consciente, porém sem querer abrir mão de muitos dos nossos confortos.

O consumo consciente de produtos que usamos diariamente, desde roupas a celulares, exige muita atenção e disciplina diária para sabermos exatamente o que consumimos e porquê. É fundamental uma profunda reflexão sobre o que realmente necessitamos, o discernimento entre o que é superficial e o que é necessário. Precisamos ter claro o valor que os objetos realmente tem para nós. E nos darmos conta que a felicidade não pode ser adquirida, não pode ser consumida, ela não vem junto com os objetos que compramos. Ela já está em nós mesmos, obscurecida pela idéia de que precisamos de algo mais para ser feliz.

 

 

Vejo o Yoga, nesse sentido, como um educador, um disciplinador. Um disciplinador do nosso corpo, ensinando-nos a nos alimentar melhor e a consumir alimentos de boa procedência (que agridam o mínimo o meio ambiente e que sejam saudáveis para o nosso corpo). Um disciplinador da nossa mente, refreando os nossos desejos, ensinando-nos que consumir não nos faz mais felizes, como nos insiste em inculcar as propagandas. Acredito, portanto, que o Yoga pode promover a ponte entre a teoria e a prática, justamente pela disciplina física, mental e emocional que promove.

 

Texto de Tales Nunes extraído de Cadernos de Yoga n.24